Parte I: A produção original como séries, a formatação em novela para atingirem mercados internacionais, e a possível chave do sucesso na América

Novelas turcas

Produção

As famosas novelas turcas que vem dominando ás telas das emissoras da América Latina, incluíndo o Brasil através da Band, são na verdade seriados, mais ou menos nos moldes das “superséries”, que começou a ter esse nome recentemente trabalhado em algumas produções americanas e brasileiras, ao retratarem um formato de narrativa menor que novela e maior do que série propriamente ditas, com temporadas seguidas, as vezes exibidas diariamente.

Assim, as produções turcas seguem este modelo e costumam ter em média três temporadas, totalizando um número extenso de episódios, possibilitando que sejam facilmente vendidas nas Américas como novelas, ao serem empacotadas como capítulos e duração de tramas folhetinescas.

Essas produções começaram diante da rejeição dos telespectadores turcos à realidade e produção das séries americanas, levando as produtoras e emissoras do país a produzirem as suas próprias histórias. Desde 2001 foram produzidas mais de 70 títulos, que renderam a partir de 2012 cerca de $ 150 milhões de dólares em exportação.

TRT, Kanal D, Show TV, Star TV, ATV, FOX, TV8, Samanyolu e Kanal 7 são as principais redes que investem nas diferentes produções turcas, que assim como seriados americanos ou brasileiros, possuem gêneros especiais, tendo assim, tramas mais femininas – com romance, emancipação – e as de suspense, mistérios, dirigidas aos homens.

Formatação

Série “Sila”, estralada por Cansu Dere, que no Brasil ganhou o nome de “Sila – Prisioneira do Amor”

Os gêneros mais femininos, que esbarram na narrativa das telenovelas, que são os maiores produtos da América Latina, permitem certa proximidade no roteiro, contribuindo para que mesmo produzidas em outro continente relativamente distante e com aspectos culturais totalmente diferentes dos países latinos, consigam atingir o gosto do público latino-americano justamente por se assemelhar aos enredos românticos das histórias mexicanas e brasileiras, que lideram o mercado de vendas de novelas.

Graças ao número extenso de episódios, em que cada temporada costuma ter entre 50 e 80, as emissoras latinas costumam escolher as produções já finalizadas para que assim possam juntar todas as temporadas em uma, totalizando algo em torno dos 180 capítulos, uma duração média das telenovelas tradicionais. Essa estratégia permite também que as produções turcas possam ser facilmente vendidas pelas rede de televisão locais como novelas, tendo grande aceitação dos telespectadores e causando esse ‘bum’ das produções da Turquia em toda a América.

Além disso, as produções turcas, que prevalecem em Stambul, trabalham com alto orçamento, superando completamente as tentativas de emissoras locais de concorrer com essas séries e as colocando totalmente em evidência no mercado árabe. A qualidade, inclusive, supera a de muitas novelas mexicanas produzidas pela Televisa e brasileiras, fora da TV Globo.

Composição e possível chave do sucesso

Localizada entre Ásia e Europa, a Turquia faz fronteira com Grécia, Bulgária, Geórgia, Arménia, Azerbaijão, Irão, Iraque e Síria. Muito em conta desse contato próximo com o oriente médio e sua política de conservadorismo, as novelas produzidas lá, começaram sendo machistas, destacavam a submissão da mulher e obediência a seus maridos e apresentavam hábitos totalmente conservadores, com exclusão total de cenas violentas ou sensuais.

Com o passar do tempo, para se aproximar do público feminino que possui mais identificação com o gênero e tomados pela evolução natural dos hábitos humanos, essas novelas passaram a destacar a rebelião das mulheres contra costumes opressores e inferiores e como seres independentes, assumindo suas características sensuais e despertadora de paixões. Assim as tramas passaram a narrar a vida de mulheres insatisfeitas com as tradições ultrapassadas, que buscavam a libertação e o amor próprio, deixando os maridos, pais e suas casas em busca da independência. Os enredos começavam a focar nas mocinhas, até frageis, mas desbravando o mundo, lidando com as dificuldades e lutando contra todos para serem felizes. Bastava apenas o romance, típico de qualquer narrativa para se aproximarem das tradicionais telenovelas da América Latina.

Cansu Dere em cena da novela “Sila”

Com essa crescente, não demorou para que as novelas turcas se assemelhassem, por exemplo, às mexicanas, as até então líderes mundiais no mercado de exportação de telenovelas. Apesar da abertura nos enredos, quase sempre as histórias são marcadas por romance. Em algum momento das histórias as mocinhas sofrem, lutam, ou buscam por um amor. Isso mostra que as produções turcas ficavam mais modernas, mas se utilizam ainda da necessidade humana em se viver paixões, maior características das novelas, que em sua maioria esmagadora contam grandes histórias de amor. Logo, também não demorou para que o telespectador latino-americano se identificasse com as tramas turcas, sobretudo as mais românticas.

Uma professora chilena e grande consumidora de novelas parte de um princípio que evidencia o interesse do telespectador da América com as novelas vindas da Turquia. “Es lenta, pero muy buena. Las [telenovelas] nocturnas en Chile son muy agresivas. La gente se aburrió de ver eso y quería ver algo más light, más romántico, no llegar a prender el televisor a las 22.30 para stresarse”, contou Claudia Carrasco. Em tradução, ela se queixa da violência excessiva das telenovelas próprias do Chile e que estava cansada de produções com essa característica, buscando então uma história mais leve e romântica, pois ao parar em frente a televisão após um longo dia de trabalho, gostaria de se entreter e não lidar com tanta violência, além da já vivida na realidade.

Esta é a principal característica para que produções chamadas de “rosas” no México, serem as preferidas e fenômenos de audiência em todo o mundo, em detrimento de outras, as vezes melhores produzidas, mas que apresentam suspense, violência, narco-tráfico, etc. No entanto, as tramas turcas possuem bom acabamento e podem ser chamadas de requintadas, além de caras, devido a sua produção em 100% externas, fugindo dos estúdios, pontos estes que as colocam muito à frente das mexicanas no quesito qualidade e também em preço, devido ao ‘bum’ na procura que elevou consideravelmente o seu valor médio no mercado.

Patricio Hernández, diretor do canal chileno Mega, atribui o sucesso à formatação dessas produções. Como elas são originalmente séries emitidas uma vez por semana em longos episódios de uma hora e meia, possuem uma agilidade incrível. Para dar conta de todo esse tempo no ar e semanalmente, um turbilhão de acontecimentos ocorrem em cada capítulo.

Além disso, tanto na Turquia, como no Chile no início da exibição das produções turcas, a pouca exibição semanal possibilita uma numeração menor de capítulos e deixa o telespectador mais livre, com a sensação de que não ficará preso a uma produção extensa e diária, como acontece com as novelas. “Al tener un formato de una vez a la semana, tiene muchos más giros, mucha más acción, al pegar un capitulo con otro pasan muchas más cosas. Tiene mayor ritmo”, explicou.

Folheto de divulgação das novelas turcas “Kara para Ask”, “Ezel” e “Sila” na Mega TV do Chile, emissora que se tornou líder de audiência após a invasão turca.

Contudo, ao serem chamadas de novelas, as produções acabaram sendo exibidas entre quatro e cinco dias na semana – no Brasil em seis de segunda a sábado – e em torno de uma hora de duração, essa teoria do descompromisso caiu um pouco por terra. Além disso, as emissoras latinas esperam as séries serem finalizadas na Turquia para adquirirem todas as suas temporadas e exibirem de uma só vez, acabando por ter um tamanho de uma novela original, entre 140 e 180 capítulos.

Assim, a simplicidade das histórias, apesar de algumas fugirem dessa modelo, ou seja, a manutenção do folhetim clássico, somado a boa qualidade de cenas, texto, atuação e produção, podem ser creditados como as melhores justificativas para tamanho sucesso. Traduzindo as palavras de Hernández, são histórias universais que chamam o público, principalmente do sexo feminino, relembrando o romantismo convencional, mas atualizado com um conjunto muito bom de cenas e na produção de um modo geral.

Agora, definitivamente o que ocasiona tamanho sucesso dessas produções em terras latinas é o forte conceito de família, presentes tanto na Turquia como em toda a América. De acordo com as pesquisas realizadas com telespectadores e estudiosos em audiência da TV e em telenovelas, existe um conceito familiar que vai além de identificar as famílias dos personagens na televisão, mas sim de serem atrações em que se podem reunir todos os familiares, de diferentes idades, de crianças , jovens a adultos, e assistirem juntos a essas produções sem nenhuma preocupação com cenas impróprias ou constrangedoras. Definição que serve e muito para as produções mexicanas mais tradicionais e as infantis produzidas pelo SBT. Resumindo, novela turca, mexicana ou infantil, mexe com sentimentos, podem ser assistidas por todos os membros de uma família e agregam grandioso público e classes de vários perfis, pois falam com todas as pessoas em sua totalidade, além de serem extremamente confiáveis.

Beren Saat, protagonista de”Fatmagul” em exibição no canal chileno Mega TV.

Questionados sobre uma possível duração desse fenômeno, Alberto Gesswein, diretor de dramaturgia do Canal 13 do Chile, acredita que a tendência deve passar, principalmente no país, em que praticamente todas as redes exibem o produto. No entanto, já caminha-se para quatro anos de sucesso das novelas turcas na América Latina. Talvez ocorra como as mexicanas, que até hoje fazem sucesso no Brasil, Colômbia, Peru, Porto Rico, Paraguai  e outros, como também poderão um dia se resumirem a explosões passageiras de determinadas histórias em particular, como acontece normalmente com as colombianas (Betty, la Fea , Cafe con aroma de Mujer, La Esclava Branca), Brasil (A Escrava Isaura, O Clone, Avenida Brasil) e Argetinas (Chiquititas, Lalola, Los Ricos no Piden Permiso).

Para os diretores chilenos, as tramas turcas não são uma ameaça as produções nacionais, apesar de liderarem em audiência no Mega e atingirem alta audiência no Canal 13, que também vão relativamente bem com novelas e programas próprios. Segundo eles são produtos diferentes, e que há espaço para todos, Hernández destaca que a invasão turca na TV chilena se deve à uma grande e demorada pesquisa, com um pouco de intuição e risco, baseado na opinião do que o público reclamava ou rejeitava nas produções nacionais, que ainda assim possuem os telespectadores fieis, até porque o Mega, em uma sacada inteligente, turbinou a sua programação com novelas chilenas e turcas convivendo em harmonia, e o sucesso de uma joga para a outra, tornando ambas sucessos de audiência e vendas.

O Mega, inclusive, usou o sucesso de “Mil e Uma Noites” e as atenções do público voltadas à novela para lançar novas produções, realities e assim sair de uma crise direto para a liderança de audiência, lugar que se mantém desde 2015. Coisa que não acontecem em emissoras menores como Chilevision, onde as turcas marcam o teto de audiência do canal, nada explosivo. Basicamente é o que acontece no Brasil, em que as mexicanas vão muito bem no SBT, algumas tiraram o sono da Globo, mas entre fenômenos e outros não tiraram a liderança da Toda Poderosa, ou como a Band, onde as turcas são consideradas sucesso marcando 3 pontos, piso de ranting da emissora, mas que seria uma marca desanimadora em uma Record TV e no próprio Sistema Brasileiro de Televisão, em que as telenovelas registram no mínimo o dobro.

Dyego Terra – @dyoliver

Saiba mais: Parte II – Invasão Turca: Sucesso em vendagens e expansão para o mercado árabe, europeu e latino

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