Portal SobreTV
Televisão é Transmídia!

Especial – História Das Novelas Mexicanas – Capítulo IX

Como Surgiu E Se Desenvolveu A Teledramaturgia Mexicana Através Das Telas De Uma Das Maiores Produtoras De Novelas Do Mundo: Televisa – História Das Novelas Mexicanas – Parte IX

História das Novelas Mexicanas

Capítulo IX – Anos 2000: Clássicos Nada Convencionais

    Continuando nossa série de matérias sobre o universo das novelas mexicanas, desembarcaremos dessa vez nos anos 2000. A primeira década do novo milênio começa repleta de grandes e inesquecíveis sucessos que valem relembrar.

            Os clássicos que comentaremos a seguir tem uma particularidade: fugiram do convencional estilo romântico das “novelas rosas” e mesmo assim foram os maiores sucessos dessa década.

Amor Real

            Exibida no ano de 2003, Amor Real se tratava de uma adaptação do clássico “Bodas de Ódio” que mesmo já tendo sido adaptada no México fez a audiência disparar. A produção, com estilo de época, foi ousada. Desde “Coração Selvagem”, dez anos antes, não se via um projeto tão grandioso na Televisa. Desde elenco, vestuário, cidade cenográfica, texto, iluminação, equipe técnica e a ótima produção de Carla Estrada

            A protagonista era Adela Noriega, que já havia brilhado em outras quatro novelas de Carla Estrada (Quinze Anos, Maria Isabel, O Privilégio de Amar e Manancial), todas com grande êxito e repercussão, não fez diferente. Uma mocinha revolucionária, forte, decida e avessa às convenções do século XIX.

            Matilde (Adela Noriega) era uma moça de boa família que vivia um romance secreto com o militar Adolfo Solís (Maurício Islas), mas sua mãe, Augusta (Helena Rojo) é contra o relacionamento, pois o militar não era de sua classe social. A família Peñalver estava falida e Augusta tratou de arrumar logo um bom marido para sua filha, mesmo contra sua vontade.

            Augusta escolhe Manuel Fuentes Guerra (Fernando Colunga) para casar-se com sua filha, já que este acabara de herdar uma grande fortuna do pai. Para conseguir que sua filha case com ele, arma um plano com o filho, Humberto (Ernesto Laguardia), onde faziam uma mulher se passar por esposa de Adolfo enquanto este era preso e levado embora, fazendo Matilde achar que foi abandonada.

            Para salvar a família da ruína e desiludida, se casa com Manuel, mas ao se casar descobre por Adolfo a verdade e tenta fugir com ele. É impedida por seu marido e levada para sua fazenda, onde vive trancada para não fugir. Adolfo consegue encontrar Matilde indo trabalhar como administrador da fazenda, aproveitando-se que Manuel nunca o tinha visto. E Matilde começa a viver o dilema de fugir com o amante ou ficar com o marido.

            Fernando Colunga, grande galã mexicano, viveu aqui um de seus melhores personagens em novelas, o melhor até então. Manuel soube conquistar o público, e mesmo maltratando a personagem de Adela, a química entre os dois era evidente e os dois tiveram a torcida de todos.

            A novela foi um sucesso indiscutível de audiência no México, e maior ainda de repercussão. A equipe estava em sintonia, e houveram muitos personagens de destaque.

            Amor Real teve uma qualidade acima da média, Carla Estrada sabe como ninguém dar ao público novelas de qualidade e com narrativa ágil. 95 capítulos foram o suficiente para que essa novela pudesse contar uma história de amor, guerra, luta e sofrimento.

            A novela ganhou 8 prêmios TVyNovelas em 2004, incluindo o de melhor novela, atriz protagonista (Adela Noriega), ator protagonista (Fernando Colunga), entre outros, sendo a grade premiada da noite.

            Uma adaptação precoce foi realizada 10 anos depois, e surpreendentemente conseguiu repetir o mesmo êxito da versão anterior. “O que a Vida me Roubou” ousou ao adaptar a obra para os dias atuais, sem perder a essência do romance de Caridad Bravo Adams.

Rubi

            A segunda versão para televisão deste clássico dos anos 1960 levou a Televisa a um grande dilema: Qual atriz ideal para viver uma das personagens mais controversas do mundo das novelas? Muitos testes foram realizados em 2004 para escolha da protagonista de “Rubi”, atrizes como Anahí e Jaqueline Bracamontes chegaram a pleitear o posto de protagonista, mas foi a uruguaia Bárbara Mori, recém-saída da TV Azteca que ganhou o papel.

            “Rubi” contava a história da anti-heroína que lutava entre o desejo de ter ao seu lado o amor de sua vida e o dinheiro. De origem humilde, Rubi (Bárbara Mori) não suportava a vida que levava, usava de sua estonteante beleza para conseguir o que queria e invejava a então “amiga”, Maribel (Jaqueline Bracamontes). Esta possuía um problema em uma das pernas e por isso usava um aparelho ortopédico. Rubi sonhava em ter tudo o que Maribel tinha, e essa inveja a levaria a trair a amiga em nome do dinheiro.

            Maribel, por sua vez, era doce e ingênua e se correspondia através da internet com Heitor (SebastiánRulli), que morava nos EUA junto de seu melhor amigo, Alessandro (Eduardo Santamarina). Quando finalmente resolve conhecer pessoalmente Maribel, Heitor se depara com o problema dela, mas isso não o impede de amá-la. Alessandro logo se interessa por Rubi, mas ao descobrir que este é pobre, o abandona. É quando Rubi começa o maquiavélico plano de seduzir o noivo da melhor amiga em busca do dinheiro que tanto sonha.

            Rubi consegue fugir com Heitor no dia de seu casamento com Maribel, deixando a noiva desolada e em depressão. Mas a felicidade de Rubi dura pouco, pois logo percebe que o amor que sente por Alessandro nunca a deixará ser totalmente realizada.

            Rubi, contou com a produção de José Alberto Castro, que começou com audiência tímida, mas a partir da fuga de Rubi com Heitor estourou e segurou altos índices até o final.

            Vilãs protagonizando novelas não são muito comuns. Rubi, trouxe o frescor de uma personagem sem escrúpulos, calculista, bela, manipuladora e destemida, que era capaz de tudo pelo amor ao dinheiro e ao poder. Geralmente as protagonistas comuns são totalmente ingênuas e se deixam manipular com facilidade.

            A trama ganhou 5 prêmios TVyNovelas em 2005, incluindo melhor novela de 2004, melhor ator e atriz protagonistas para Eduardo Santamarina e Bárbara Mori.

            A novela popularizou ainda a música tema “La descarada”, tornando-a um sinônimo da protagonista, comumente chamada de descarada. A abertura da novela é uma das mais recordadas por todos, com cenas dos protagonistas sendo seduzidos pela beleza de Rubi.

A Madrasta        

      Salvador Mejía que sempre teve problemas com a crítica televisiva por produzir novelas exageradamente clichês e com excessos, acertou em cheio na produção de “A Madrasta”.

            Erika Buenfil e Verónica Castro eram as favoritas para viver a protagonista, que dessa vez necessariamente teria de ser uma mulher de meia idade cuja batalha é a de conquistar o amor dos filhos. Com a desistência de ambas, Victoria Ruffo (que já havia trabalhado com Salvador em “Abraça-me Muito Forte) voltaria às telas da Televisa, desta vez como protagonista absoluta da novela.

            A Madrasta tinha em seu enredo dois pilares: o misterioso assassinato de uma mulher (e por razão deste, Maria, a protagonista vivida por Ruffo, estava presa há 20 anos, mesmo inocente) e sua luta posterior para descobrir o verdadeiro assassino e reconquistar o amor dos filhos (estes acreditavam que sua mãe havia morrido), por isso ela voltaria como madrasta dos próprios filhos.

            Coube a César Évora o papel de Estevão, protagonista masculino. O grande ator teve a chance de mais uma vez repetir a dobradinha com Ruffo e o produtor Mejía. Seu personagem era um pai dedicado para Estrela (Ana Layevska) e Heitor (Mauricio Aspe) que cresceram complexados pela falta da mãe. Estevão, acreditando na culpa da esposa pelo assassinato de Patrícia (Montserrat Oliver), faz os filhos acreditarem que sua mãe morreu e passam a venerar a imagem de uma estranha pintada na parede.

            A vida de Estevão e de todos que estavam na viagem onde Patrícia morreu muda drasticamente quando Maria volta em busca de justiça. Ela vem disposta a enfrentar a todos e desmascarar o culpado.

            A novela dispôs de um vasto número de antagonistas, justamente os suspeitos do assassinato que alimentou toda a trama, dentre eles destacam-se: Alba (Jaqueline Andere), tia de Estevão, cruel e calculista, nutria pelo sobrinho amor carnal e vivia perturbada por isso; os casais Demétrio (Guillermo García Cantú) e Daniela (Cecília Gabriela) e Bruno (René Casados) e Fabíola (Sabine Moussier) que viviam confortavelmente comprados por Estevão para guardar o segredo do destino de sua esposa para os filhos; Carmem (Margarita Isabel) irmã de Alba, talvez a única com bom coração, entre todos os suspeitos.

            Estevão tem um terceiro filho, Ângelo (Mike Biaggio), adotado, mais tarde se descobre que ele é filho de uma das tias de Estevão: Carmem ou Alba. E que para evitar o falatório da sociedade, uma delas havia entregado o garoto para que ele acreditasse ser filho de Estevão.

            Em meio a este emaranhado de mentiras e ressentimentos surge Maria, disposta a recuperar os filhos, mas ao saber que eles a têm como morta, decide obrigar Estevão a se casar mais uma vez com ela, tornando-se madrasta dos filhos.

            Vale lembrar que a novela fez um grande sucesso em 2005, tanto que foi exibida no mesmo ano aqui no Brasil. Tamanho sucesso fez com que ela fosse esticada em alguns capítulos em sua reta final, tempo este que serviu para mostrar o assassino de Patrícia sendo descoberto e agindo, não deixando a surpresa apenas para o último capítulo, tratava-se de Demétrio, amante de Patrícia, e que tinha o estranho fetiche de se vestir de mulher, em razão da chantagem de Patrícia, este a havia matado e Maria pagou por isso.

O imenso sucesso fez ainda com que a novela ganhasse um capítulo especial após o fim, assim como havia acontecido com “A Usurpadora”.

            Em sua reapresentação, no ano de 2008, a Televisa produziu um novo final onde o assassino seria outro. Mesmo com toda a dificuldade de reunir o elenco, conseguiram mudar algumas cenas cruciais do final, e dessa vez Fabíola, personagem de Sabine Moussier, era a assassina.

            O inesquecível tema de abertura da trama trazia Laura Pausini nos vocais, e ela ainda chegaria a participar da novela interpretando o tema “Víveme”.

            A Madrasta é sem dúvidas, uma das melhores novelas dos anos 2000, sucesso indiscutível de crítica e de audiência, e trouxe uma trama repleta de suspense para o horário nobre mexicano.

A Feia Mais Bela

            Em 2006 estreia na Televisa a versão do grande sucesso colombiano, “Betty, a feia”, com a difícil missão de agradar tanto quanto a original, que havia feito relativo sucesso na TV Azteca e grande sucesso pelo mundo inteiro.

            Rosy Ocampo foi a encarregada de produzir esse remake, ela vinha de grandes novelas infantis e “A Feia Mais Bela” assumiria de vez a faixa destinada anteriormente a essas novelas, por isso projetou-se a ideia de tornar a história um pouco mais leve. Aos poucos Rosy decidiu transformar o clássico colombiano em uma comédia pastelão com direito a todos os estereótipos possíveis. Muita desacreditada, a novela tornou-se um fenômeno as 16h com médias próximas aos 30 pontos (audiência superior, e muito, a da fracassada “Mundo de Feras”, no horário nobre). Tamanho sucesso fez a novela ser transferida duas vezes de horário, para as 18h e em seguida para as 20h.

            Angélica Vale, foi a escolhida para viver a protagonista Lety, uma jovem com grande formação acadêmica e inteligência que sofria para conseguir um trabalho por conta da sua aparência. Decide então se candidatar ao cargo de secretária, mesmo tendo formação para exercer cargos mais importantes, tudo em nome de conseguir algum emprego.

            É na empresa “Conceitos” onde ela consegue o emprego de secretária do então novo presidente, Fernando (Jaime Camil), e ao lado dele tenta levar a empresa em diante, sendo a cabeça geradora por trás dos negócios, pois o patrão não tinha nenhuma experiência e precisava mostrar serviço para o pai.

            É nessa tentativa de fazer a empresa crescer que Fernando comete grandes erros e faz com que Lety maquie os balanços da empresa para esconder sua real situação, até que chega ao ponto de embargar a empresa (para uma empresa criada por Lety) para evitar que a sua empresa fosse tomada pelos bancos.

            E para evitar que Lety tome sua empresa (mal aconselhado por seu melhor amigo e vice-presidente da empresa, Omar, vivido por Agustín Arana), Fernando decide seduzir Lety, para garantir que ela não o roube. Ao descobrir a armação dos dois, Lety se desespera e foge da cidade, para se esconder de Fernando por quem estava perdidamente apaixonada. Sem ao menos imaginar que ele havia aos poucos se apaixonado por ela.

            Vale destacar algumas atuações como a de Patricia Navidad, vivendo a secretária ex-rica, burra, oxigenada e esnobe, Alice Ferreira, que é infernizada pelo “quartel das feias” (grupo de empregas pouco atraente da empresa que se unem para fofocar e tornar a vida de Alice impossível). E a atuação de Juan Soler, que entra na segunda fase da novela para disputar o amor de Lety com Fernando.

            A novela durou longos 300 capítulos, talvez o único grande erro da produção, mas provavelmente ninguém esperaria que ela desse mais de 30 pontos de audiência e se tornasse um grande sucesso de exportação.

            Para suprir 300 capítulos novas histórias foram criadas e a novela ganhou várias participações especiais durante sua exibição, de atores e cantores mexicanos famosos que se envolviam em situações loucas e desastrosas na empresa “Conceitos”.

            Desde “Amor Real” em 2003, uma novela não fazia tanto sucesso como aconteceu com “A Feia Mais Bela”. Sucesso este que fez com que a novela ganhasse uma reprise em 2007 no canal principal da Televisa, duas reprises seguintes no canal secundário e TLN (a cabo), e mais uma reprise entre 2014 e 2015 no canal principal, um recorde de reprises em tão pouco tempo.

            O sucesso rendeu ainda 6 prêmios TVyNovelas em 2007, destacando-se o de melhor atriz para Angélica Vale e o de melhor novela.

Destilando Amor

            Outro grande sucesso colombiano que a Televisa adaptou foi “Destilando Amor” e mais uma vez contrariando a todos que não acreditavam em seu sucesso. A novela era uma adaptação de “Café com Aroma de Mulher” que já havia ganhado duas exibições e um remake na TV Azteca, teria em 2007 mais uma adaptação.

            Nicandro Diaz escolhe Angélica Rivera para fazer o papel da humilde trabalhadora rural Maria Teresa, conhecida como Gaivota, que se apaixona perdidamente (e é correspondida) por Rodrigo (Eduardo Yañez). Os dois tem atração instantânea e um ardente romance.

Tudo muda quando ele se muda para a Europa para estudar, mas promete voltar para reencontrá-la, logo após sua partida, ela descobre que está grávida e se arrisca a ir em busca de seu amor. Para isso aceita um emprego de modelo, mas quando chega na Europa descobre que o tal trabalho era de prostituta. Além de não encontrar Rodrigo, tem que escapar de lá.

Quando volta ao México, Gaivota encontra Rodrigo casado com outra mulher, Isadora (Martha Júlia), achando que a amada o traiu indo se prostituir na Europa. Começando aqui uma intriga que se desenlaçaria apenas ao final da novela.

            A produção de Nicandro foi bastante fiel ao texto original, e trouxe para o México uma grande adaptação. A novela tornou-se um grande fenômeno de audiência, superando “Amor e Real” e “A Feia Mais Bela” que detinham as maiores audiências dos anos 2000. O mesmo não ocorreu em sua exibição no Brasil, onde saiu do ar com cerca de 20 capítulos exibidos, por falta de audiência.

Angélica Rivera se tornaria aqui uma das atrizes mais queridas do México na década, e o nome Gaivota é utilizado até hoje para se referir a ela. Em seguida a atriz viria a se tornar primeira dama do país, se afastando da atuação.

A novela concorreu a 12 prêmios TVyNovelas em 2008 e ganhou 10, tornando-se a segunda maior ganhadora da premiação (a maior é “O Privilégio de Amar”, com 11 prêmios). Dentre os prêmios vale destacar os de melhor atriz e ator para Rivera e Yañez, melhor vilão e vilã para Sergio Sendel e ChantalAndere e o de melhor novela.


CENAS DO PRÓXIMO CAPÍTULO (Domingo, 9)

A primeira década dos anos 2000, foi de grande produção e sucesso para a Televisa, suas novelas continuaram mostrando a força do canal e sua aceitação continuou em alta. No próximo capítulo vamos relembrar as melhores novelas juvenis exibidas pela Televisa, que mantiveram o público jovem grudado na frente da TV através dos anos.

Jorge Luis.

Siga o autor no Twitter

@JorgeLuisSQ

Comentários