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Especial – História Das Novelas Mexicanas – Capítulo VIII

Como Surgiu E Se Desenvolveu A Teledramaturgia Mexicana Através Das Telas De Uma Das Maiores Produtoras De Novelas Do Mundo: Televisa – História Das Novelas Mexicanas – Parte VIII

História das Novelas Mexicanas

Capítulo VIII: Embarque No Carrossel Das Novelas Infantis

A Televisa desde cedo se preocupou com a programação infantil. Em mais de 60 anos, foram muitos os programas, especiais, musicais, séries e infantis exibidas no México. O país que mais produz novelas no mundo não poderia deixar de exibir novelas voltadas para o mundo infantojuvenil. A grande maioria dessas tramas infantis são consideradas verdadeiros clássicos. Nesse capítulo vamos relembrar das principais novelas infantis mexicanas.

Chispita

            Protagonizada por Lucero ainda criança, “Chispita” é uma das primeiras produções no gênero novela produzida pela Televisa, ainda em 1982. Ficou a cargo de Valentín Pimstein, grande produtor responsável pelas mais importantes “novelas rosas” o desafio de criar esta história que catapultou a carreira da pequena atriz e cantora Lucerito.

            A novela traz a história de Isabel (Lucero), uma menina doce e inteligente que vive em um colégio de freiras, apelidada de Chispita carinhosamente. Após a morte da avó de Isabel, que trabalhava como cozinheira do colégio, uma nova empregada é contratada, se trata de Lúcia (Angélica Aragón) na verdade a verdadeira mãe de Isabel. Devido a um acidente que sofreu anos antes, sofre de amnésia e não se lembra de seu passado e de sua filha.

            A nova cozinheira se torna cúmplice e melhor amiga de Isabel sem saber ser sua filha. Enquanto isso Alexandre (Enrique Lizalde), um homem rico e viúvo, decide adotar Isabel para fazer companhia para a filha problemática. Chispita vai contra sua vontade, pois sonha em encontrar a verdadeira mãe. Alexandre ainda se apaixona por Lúcia e nasce uma bela relação entre eles. Os laços entre os três crescem a cada dia, formando enfim a família tão desejada por Chispita. Depois de passar por muitos apuros e desencontros, tudo é resolvido, Lúcia recupera a memória e pode viver com o novo amor e a filha. 

            Lucero estreava aqui uma carreira de grande sucesso, antes da novela ela participou do programa infantil “Chiquilladas”, o mesmo que anos depois descobriu a atriz e cantora Anahí, entre outros grandes talentos mexicanos.

            Chispita foi êxito sem precedentes na América Latina e Europa. Lucero lançaria depois da novela sua carreira como cantora, inicialmente infantil, seguindo para os estilos: romântico, pop e mariachi.

            É considerada a primeira grande novela infantil da Televisa e o elenco estelar protagonizou várias novelas seguintes. O sucesso foi tanto que no Brasil a novela foi exibida em 1984 pelo SBT e reprisada diversas vezes entres as décadas de 1980 e 1990.

            A novela ganhou ainda uma adaptação em 1996 pela própria Televisa, trata-se da novela “Luz Clarita”, protagonizada por Daniela Luján, que mais uma vez a história foi um fenômeno e sua protagonista também ganhou fama internacional.

Carrossel

            Carrossel foi uma novela transmitida pela Televisa entre 1989 e 1990, onde mostrava o dia-a-dia da professora Helena (Gabriela Rivero) e de seus alunos do segundo ano. Desde problemas com a família, financeiros, de conduta ou brigas de criança, tudo foi debatido com bastante clareza e de forma com que as crianças se encantassem por cada um dos personagens infantis.

    A novela foi um verdadeiro fenômeno de audiência no México e em todos os países por onde passou, mas em especial no Brasil. Exibida aqui entre 1991 e 1992, a novela tirou o sono da Rede Globo. Pela primeira vez uma novela mexicana causava tanto alvoroço. Na concorrência a novela das 8 sofria com baixos números e Carrossel no SBT cada vez mais se consolidava com médias acima de 20 pontos de audiência e a preferência de boa parcela do público que via novelas no horário.

            O enredo da novela era bastante simples, assim como o seu cenário: basicamente a Escola Mundial. O mais impressionante foi que o folhetim mesmo com totais chances de se perder por falta de uma trama forte, conquistava cada vez mais público.

            Gabriela Rivero chegou a visitar o Brasil e na ocasião além de participar dos programas do SBT, desceu à rampa da Esplanada em Brasília ao lado do então Presidente, Collor, honraria apenas para pessoas muito importantes.

            Sem dúvida alguma a professora Helena se transformou em sinônimo de bondade e amor, uma professora que todos queriam ter.

            Não esquecendo do devido destaque a atriz mirim Ludwika Paleta que fez de Maria Joaquina uma pequena grande vilã. Ela viveu aqui uma garota rica e preconceituosa que passou toda a novela discriminando Cirilo (Pedro Javier Viveros) por sua cor de pele e condição social, chegando muitas vezes a chocar com sua crueldade. A atuação ainda lhe rendeu um troféu TVyNovelas de melhor atriz infantil. Esse foi o primeiro passo da atriz para brilhar nos anos seguintes na Televisa.

            A novela ainda ganhou algumas versões, “Carrossel das Américas”, a primeira em 1992 com a própria Rivero interpretando a professora Helena. Em 2002, a Televisa produziu o remake chamado “Viva às Crianças”, que por aqui ganhou subtítulo de “Carrossel 2”. E em 2012 o SBT produziu a versão brasileira que foi a responsável por trazer a emissora de volta à vice-liderança em audiência no país.

O Diário De Daniela

            Mais um grande sucesso infantil da Televisa nascia em 1999, “O Diário de Daniela” trazia de volta Daniela Luján em um papel principal (ela havia conquistado a todos com sua atuação em Luz Clarita antes), dessa vez em uma novela repleta de aventuras, dramas e muita música. 

            O enredo trata da doce e bondosa Daniela Monroy que vive uma vida feliz com seu pai, Henrique (Marcelo Buquet), sua mãe, Leonor (Leticia Calderón) e seus irmãos Joãozinho (Rodrigo Soberón) e Adélia (Anahí), até que são abatidos pela morte prematura de Leonor, causada por Helena (Monika Sánchez), assistente de Henrique, sempre em busca de subir socialmente.

            A tragédia abala toda a família. Adélia vivida pela atriz e cantora Anahí se torna uma adolescente voluntariosa e rebelde e faz de tudo para chamar a atenção de seu pai, além de culpa-lo pela morte da mãe. Henrique entra em depressão. E a única que consegue seguir, de algum modo, é Daniela. Henrique se apaixona posteriormente por uma empregada do teatro ao qual é acionista, Natália (Yolanda Ventura), mas Helena não permitirá que a jovem moça ocupe o lugar que ela julga ser dela.

            É junto ao amigo Martín (Martín Ricca) que Daniela encontra forças para seguir em frente, apesar de ele sofrer de maus tratos por parte do padrasto, é um garoto bom que ama Daniela e faz de tudo para vê-la feliz. Junto a eles dois existe um grupo de crianças que decidem formar um grupo musical, vivendo as mais diversas aventuras.

            Destacam-se aqui as atuações de Odiseo Bichir e Monika Sánchez como Joel e Helena, dupla de vilões responsáveis pela morte de Leonor, fraudes na empresa de Henrique e maus tratos a Daniela e seus amigos.

            Anahí como a rebelde Adélia vinha apenas demonstrar o talento evidente desde a infância. Fez uma personagem que foi sendo moldada de acordo com os capítulos. Com variações de comportamento, humor e sentimentos.

            Marcelo Buquet foi substituído por Gerardo Murguía no meio da trama, algo comum em algumas novelas quando se tem problemas entre atores e produção, porém, a química entre Marcelo e Yolanda Ventura foi quebrada com a mudança de atores.

            A novela fez grande sucesso em vários países e trouxe Daniela Luján ao Brasil para programas de TV e ela chegou a gravar música em português para a trilha de uma próxima novela infantil, Gotinha de Amor. Daniela seguiu carreira na Televisa fazendo  ainda alguns sucessos infantis e em seguida se tornou também apresentadora de TV e hoje trabalha no meio de maneira gradual.

Carinha De Anjo

            Carinha de Anjo foi uma novela que conquistou o público inesperadamente. Tem como plano de fundo a vida de uma pequena garotinha de apenas 5 anos, Dulce Maria (Daniela Aedo) que estuda em um internato de freiras após a morte prematura de sua mãe, Angélica (Marisol Santacruz), e da depressão em que vive seu pai, Luciano (Miguel de León).

            É no internato que ela convive com a doce irmã Cecília (Lisette Morelos) e com a espevitada irmã Fabiana (Adriana Acosta) que assumiram para si o dever de cuidar da pequena após o “abandono” por parte do pai. Dulce tem ainda a Tia Peruca (Nora Salinas) e seu tio e padre Gabriel (Manuel Saval) com quem passa os fins de semana.

            A história se passa a partir do momento que Luciano decide voltar para o México e assumir o dever de cuidar da filha. Isso faz com que Dulce se encha de alegria. Mas como nem tudo são rosas, Luciano traz consigo uma namorada, a invejosa e oportunista Nicole (Ana Patrícia Rojo), para o desespero de Dulce Maria, porém nem tudo está perdido, a menina vai lutar com todas as armas (de uma criança de 5 anos, diga-se travessuras de todas as espécies) para separar o pai da bruxa, contando com a ajuda de sua Tia Peruca e da Irmã Fabiana.

            Dulce ainda consegue fazer com que Cecília veja com outros olhos Luciano e ela desista de se tornar freira. Começando aqui uma nova fase onde a noviça e o pai de Dulce se apaixonam e tem que enfrentar tudo e todos.

            Não devemos deixar de mencionar alguns personagens que fizeram desta novela um clássico infantil. O primeiro deles é a Madre Superiora vivida pela grande atriz argentina Libertad Lamarque, em seu último papel na TV. A atriz que havia ficado famosa 2 anos antes no Brasil por interpretar a Vovó Piedade no clássico “A Usurpadora”, vinha agora como a rabugenta, porém amorosa freira que dirigia o internato. Porém a atriz que já estava com mais de 90 anos morreu no meio da trama. A explicação dada foi que a Madre foi para um retiro espiritual, uma forma bonita e didática de explicar a ausência de tão querida personagem.

            Silvia Pinal entra então na fase seguinte da novela, para substituir a lacuna deixada por Libertad, interpretando a Reverenda Lucia, nova diretora do “Rainha da América”.

            Outro personagem de destaque é o de Marisol Santacruz, que era a mãe de Dulce e aparecia para a pequena todas as vezes em que ela ia em um quartinho escondido, sempre na forma de anjo da guarda de Dulce Maria. Uma maneira diferente de encarar a morte de um ente querido. Angélica era quem sabia como acalmar a pequena sempre que ela sofria com as brincadeiras das meninas do internato.

            Cecília e Luciano, o “Papito”, como chamava Dulce, formaram um dos casais mais queridos das novelas, o romance demorou um pouco para começar devido ela estar se preparando para ser freira, mas a desistência dela e a química do casal rendeu bons momentos durante a novela inteira.

            Em especial, talvez a personagem mais emblemática da novela seja a Tia Perucas, Nora Salinas que havia saído de dois trabalhos difíceis (Graziela em “Esmeralda” e Vera em “Rosalinda”) conseguiu aqui roubar completamente a cena. Junto com Noel (Juan Pablo Gamboa) se casaram e formaram os tios que toda criança sonharia em ter, divertidos, simpáticos, amáveis e com espírito de criança. Assim como o casal protagonista, este também teve muita química e roubou o coração do público, Juan Pablo conseguiu apagar totalmente a canalhice de seu personagem mais famoso, Willy de “A Usurpadora”.

                        No Brasil, a novela foi um fenômeno, conseguiu 17 pontos de média, muitas vezes audiências acima dos 20 pontos e foi o motivo principal para o fracasso da novela global das 7, “As filhas da mãe”. Chagando muitas vezes a encostar na Globo. Esse sucesso ainda trouxe Daniela Aedo ao Brasil em 2001.

            Atualmente temos no ar a adaptação brasileira deste clássico, no SBT, com a pequena Lorena Queiroz no papel de Dulce Maria.

Cúmplices De Um Resgate

            Belinda havia sido descoberta em “Amigos para Sempre” por Rosy Ocampo (uma das principais produtoras de novelas infantis entre os anos 1990 e 2000). Já havia ganhado fama internacional, mas foi em “Cúmplices de um Resgate” que ela estourou de vez.

            A história tratava das gêmeas Silvana e Mariana que haviam sido separadas ao nascer. Rosa (Laura Flores), mãe das meninas, nunca chegou a saber que teve duas filhas, uma delas foi roubada para assegurar o casamento de Regina (Cecília Gabriela). 11 anos após, Silvana é uma garota rica e mimada que possui o sonho de ser uma grande cantora, mas enfrenta um grande empecilho: não sabe cantar. Decide ir a um vilarejo com sua babá Marina ver um concurso de bandas, quando se depara com uma garota exatamente igual a ela, Mariana.

            Silvana que faria um teste para uma banda na gravadora do seu “tio” decide convencer Mariana a substituí-la para conseguir se tornar a vocalista. É em meio a essas trocas que Regina descobre tudo e decide sequestrar Mariana para que ninguém descubra que ela roubou sua irmã gêmea. Quando descobre que o marido que acabara de falecer deixou tudo para a filha, ela decide então manter Silvana e sua babá presas enquanto Mariana se passa pela irmã.

            Mariana confessa a Joaquim (Fabián Chávez) e a seus irmãos (que fazem parte da banda “Cúmplices de um Resgate”) a verdade sobre o sequestro. Com a ajuda deles ela consegue libertar Silvana do cativeiro e ela é levada para a mãe verdadeira, se passando por Mariana.

            Rosa não entende as mudanças de comportamento da filha, mas se sente aliviada por ela ter voltado para casa depois de tanto sofrer no sequestro. A trama se desenrola na tentativa da banda Cúmplices de um Resgate desmascarar Regina, seu irmão e os comparsas e salvar Mariana que continua se passando por Silvana.

            Muita música também é parte importante da novela, já que é um dos temas principais. Em meio a tudo isso, a novela é esticada devido ao sucesso e Belinda decide não continuar. A partir do capítulo de n° 91, Daniela Luján assume o papel de Silvana e Mariana. Com esse esticamento e o sequestro desfeito a última fase da novela se resume ao sucesso que a banda fictícia vem fazendo e a entrada de um novo elenco juvenil, junto a Daniela. Martin Ricca entra interpretando ele mesmo, um cantor teen que se apaixona por Silvana. E Regina, que era dada como morta aparece disfarçada como Tânia, a dona de uma nova gravadora concorrente.

            Cabe destacar aqui que a trilha da novela foi indicada ao Grammy Latino como melhor álbum infantil. Foram lançados 4 discos da novela, o disco “Mariana” (com músicas de estilo popular), o disco “Silvana” (com músicas pop), “Canta con Cómplices al Rescate” (com variados temas) e um último álbum com regravações nas vozes de Daniela Luján e Martín Ricca que entraram na segunda fase.

            De modo geral, a substituição de atrizes pesou e muito para o resultado final da novela, mesmo com todo o carisma de Daniela, era inegável que o público já havia se habituado à Belinda. E comparações sempre vão ser feitas. Mas ambas atrizes desempenharam com bastante competência os papéis das gêmeas.

            Cúmplices de um resgate entra para a história das novelas infantis mexicanas, como uma das que mais encantou o público. Ao final da novela uma grande turnê pelo México foi lançada e eles lotaram grandes estádios.

            O SBT produziu sua adaptação brasileira exibida entre 2015 e 2016, com grande êxito, Larissa Manoela interpretou as gêmeas aqui chamadas de Isabela e Manuela.

(Abertura da primeira fase da novela com Belinda)

(Abertura da segunda fase da novela com Daniela Luján)


CENAS DO PRÓXIMO CAPÍTULO (Quarta, 5)

No próximo capítulo do nosso especial chegaremos a primeira década dos anos 2000, e com ela descobrir os maiores sucessos que a Televisa produziu há poucos anos.

Jorge Luis.

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