Como Surgiu E Se Desenvolveu A Teledramaturgia Mexicana Através Das Telas De Uma Das Maiores Produtoras De Novelas Do Mundo: Televisa – História Das Novelas Mexicanas – Parte VII

História das Novelas Mexicanas

Capítulo VII: Anos 1990: A Era dos Clássicos

No capítulo anterior vimos o impacto causado por Thalía e suas novelas nos anos 1990. Ela se consagrou a rainha definitiva das novelas mexicanas e seu reinado rende frutos até hoje, embora na música, onde ela se firmou, depois de dar vida às Marias da Trilogia, como uma das maiores representantes do Pop Latino.

Agora iremos continuar nossa aventura pela Televisa ainda nos anos 90. Essa década que é a mais significativa para os brasileiros, já que o maior número de clássicos exibidos no SBT é proveniente dessa década.

Coração Selvagem
O ano era 1993 e a Televisa já produzia uma novela que é considerada por muitos uma das melhores mexicanas de todos os tempos. “Corazón Salvaje” (no Brasil, Coração Selvagem) ainda é uma das novelas mais lembradas pelo público, fator estranho já que ela foi exibida nas tardes do SBT e não em horário nobre como os outros grandes sucessos.

            A história era a terceira versão do clássico de Caridad Bravo Adams que já havia feito sucesso nas décadas de 60 e 70, voltava a estremecer o México no comecinho dos anos 1990.

            Protagonizada por Edith González e Eduardo Palomo (falecido em 2003) e antagonizada por Ana Colchero e Ariel López Padilla, o enredo repassado no começo do século XX tratava de João do Diabo (Palomo, filho bastardo de um grande senhor de terras) que é um pirata que navega os mares do México e Caribe e irmão de André (Ariel, filho legítimo), os dois se apaixonam pela mesma mulher, a descarada e maquiavélica Condessa Aimée (Colchero), ela rouba o noivo da irmã, Mônica (Edith), com medo de ficar solteirona, e por saber que este era o melhor partido do México. Mas, ela tem uma tórrida paixão com João do Diabo, que não fica nada feliz ao saber que foi enganado. Por outro lado, Mônica decide virar freira por causa da desilusão de perder o noivo. Tudo muda quando ela se casa com João do Diabo para afrontar a família e se vingar de Aimée.

A partir daí as duas irmãs que antes disputavam André, passam a disputar João do Diabo. Aimée não aceita que a irmã tenha conseguido o amor do selvagem. E fará de tudo para acabar com esse casamento, pois o seu está em ruínas (após o marido descobrir quem era ela) e também por descobrir que João era também herdeiro de uma fortuna por ser irmão de seu marido. Mônica por sua vez, não permitirá que a lhe tirem a felicidade mais uma vez.

O sucesso da trama foi coroado nos prêmios TVyNovelas de 1994, em que a novela foi a grande vencedora e uma das mais premiadas dentre todas. Edith González se consagraria aqui como grande protagonista de novela, assim como Eduardo Palomo. Ana Colchero preferiu sair do mundo artístico anos depois. Mas sem dúvidas, a trama marcou a história da Televisa como uma das mais ousadas e mais bem produzidas.

Laços De Amor

            Em 1995 a produtora Carla Estrada buscava uma estrela para um projeto arrojado, uma novela com personagens trigêmeas. Lucero foi a escolhida para tal produção.

O enredo era simples: uma irmã era cega e insegura (Maria Fernanda), a outra era a vilã maquiavélica e ambiciosa (Maria Paula) e a última estava desaparecida (Maria Guadalupe) desde a infância e já era dada como morta por alguns. Os destinos das três, porém se cruzariam em seguida e a malvada mais velha se encarregaria de eliminar a irmã desaparecida para não dividir a herança milionária deixada pelos pais, e a fortuna da avó.

Foi montada certa força-tarefa na Televisa para a realização da trama, as gravações começaram muitos meses antes da estreia, pois Lucero precisava interpretar 3 personagens que apareciam a todo instante na novela. A tecnologia de 1995 não era como a atual, porém, conseguiram imprimir bons efeitos especiais em que a atriz precisaria interpretar 2 ou 3 gêmeas na mesma cena.

Maria Paula, foi sem sombra de dúvidas um divisor de águas na carreira da atriz e cantora Lucero. Vinda de programas infantis e da novela Chispita, havia até aqui protagonizado algumas novelas interpretando mocinhas comuns, mas foi em Laços de Amor que recebeu o maior desafio de sua carreira até então. Além de interpretar trigêmeas, uma delas era a vilã principal da trama. Uma personagem extremamente difícil e densa que foi se revelando uma sociopata aos poucos.

Lucero e Lazos de Amor foram brindadas como melhor atriz e novela de 1996 nos prêmios TVyNovelas, superando Thalia como melhor atriz e Maria do Bairro como melhor novela. No total foram 7 prêmios na noite. Lucero que já havia antes ganho este prêmio se tornaria anos depois uma das maiores vencedoras dele.

A novela foi exportada para cerca de 100 países e em muitos foi a primeira grande novela de Lucero desde Chispita. Lucero se tornaria em seguida uma das cantoras populares mais famosas no México, no estilo Pop e de música popular de Mariachi, totalizando quase 30 milhões de álbuns vendidos.

A Usurpadora

No final dos anos 1990, o produtor Salvador Mejía decide adaptar uma nova obra de Inés Rodena sobre gêmeas idênticas, chama Thalía para os papéis, mas esta recusa por querer apostar na carreira internacional como cantora. E fica a cargo de Gabriela Spanic, atriz venezuelana e novata o grande desafio de viver as gêmeas.

O enredo já havia sido adaptado nos anos 1970 com Angélica María como as gêmeas protagonistas, mas Salvador decide apostar pesado nesse remake. Nasce então, “A Usurpadora” em 1998. Trama que mostra a história de Paola e Paulina, a primeira obrigando a sua irmã (que até então nunca havia visto) a se passar por ela em sua casa à fim de se divertir pelo mundo com seus amantes.

Paulina, seguindo a cultura das “novelas rosas”, era ingênua, porém perspicaz e ousada, fez de tudo para salvar a família Bracho da ruína e para livrá-la da má influência que Paola exercia na mansão.

A trama catapulta ainda mais a carreira de Fernando Colunga e o torna o principal galã de novelas mexicanas da década de 90 e pelos anos 2000. Além de lançar para o mundo o talento de Gabriela Spanic, que eternizaria ela como a única Paola Bracho.

Sucesso estrondoso de audiência e de vendas (cerca de 120 países puderam acompanhar o clássico), a novela se torna uma das mais reprisadas pelo mundo e sua trama até os dias atuais coleciona seguidores e admiradores.

O Privilégio De Amar

Carla Estrada mais uma vez tem uma missão difícil pela frente, em 1997, em meio à crise causada pela novela Mirada de Mujer (Olhar de Mulher) na TV Azteca, ela decide trazer de volta ao México à grande estrela Adela Noriega e “Maria Isabel” retoma a preferência do público pela Televisa. Mas entre 1998 e 1999, ela ganha um desafio ainda maior, segurar os índices deixados por A Usurpadora no horário nobre mexicano. A trama de Paola e Paulina havia sido um fenômeno para os novos padrões do ibope.

Carla Estrada, então, traz para o público “O Privilégio de Amar”, novela que arrebataria 11 troféus TVyNovelas em 1999 e deixaria “A Usurpadora” a ver navios. Tornou-se desde então a novela mais assistida daTelevisa desde 1997, até hoje não superada. A história de Cristina, interpretada por Adela, levaria ela a ser uma das recordistas de prêmios e vendas da Televisa. Contando a saga da mocinha que abandonada pela mãe, vivida por Helena Rojo, se torna modelo em sua agência e sofre diversas vezes com a autoritária mãe sem saber de seu parentesco.

Cristina (Adela Noriega) havia sido abandonada na porta de uma casa por sua mãe Luciana (Helena Rojo), num ato de loucura e desespero, por não ter como criar a filha, que era fruto de um caso dela com o filho de sua antiga patroa, e que viria a se tornar padre pouco depois.

O destino quis que Cristina crescesse junto às freiras de um convento, mas com o sonho de se tornar uma grande modelo, e seria na loja de modas de sua progenitora que encontraria este sonho. No início, humilhada por sua mãe, e enganada pelo enteado de Luciana, engravida e tem que abandonar temporariamente o sonho. 

Ainda teria de enfrentar a vilã Tamara (Cynthia Klitbo) que enlouquecida desde a primeira cena, sonhava em casar com Victor Manuel (René Strickler) e ficar bem financeiramente para o resto da vida. Cristiana se tornaria a sua principal rival, pois seu noivo, depois de enganar a mocinha, havia se apaixonado por ela.

Se desenrolaria assim uma das histórias mais clássicas já produzidas pela Televisa. Cynthia Klitbo protagonizaria uma das cenas mais épicas ao raspar a própria cabeça em plena rua da cidade de Paris, em um dos seus muitos atos de loucura. Já Adela Noriega se eternizaria como uma das maiores e mais queridas atrizes de novelas mexicanas, e junto a Lucero, as duas maiores ganhadoras dos prêmios TVyNovelas.


CENAS DO PRÓXIMO CAPÍTULO (Domingo, 2)

No próximo capítulo sobre o mundo das novelas mexicanas, vamos embarcar em um Carrossel junto às melhores e mais famosas novelas infantis produzidas pela Televisa entre 1980 e os anos 2000.

Jorge Luis.

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