Como Surgiu E Se Desenvolveu A Teledramaturgia Mexicana Através Das Telas De Uma Das Maiores Produtoras De Novelas Do Mundo: Televisa – Parte VI

História das Novelas Mexicanas

Capítulo VIAnos 1990: Thalia É Consagrada Rainha Das Novelas Mexicanas

O nosso especial sobre novelas mexicanas chega agora aos anos 1990, uma das décadas mais importantes para a Televisa em seu já consolidado império de exportação de novelas para o mundo. Para falarmos dessa década, vamos dividir essa década em duas partes, e nesta primeira relembraremos da maior estrela que a Televisa já lançou: Thalía.

            As “novelas rosas”, sucesso indiscutível de audiência continuavam em alta na Televisa, mas os anos 1990 chegavam com um problema, Verónica Castro e Lucía Mendéz, grandes atrizes que popularizaram essas novelas entre o fim dos anos 1970 e toda a década de 1980, já não eram mais tão jovens e geralmente esse tipo de história exigia pouca idade das atrizes que chegariam a interpretá-las. A Televisa começa então a sondar várias atrizes para preencher esses papéis.

            Valentín Pimstein, grande produtor que se popularizou no México e levou ao mundo grandes novelas (principalmente de Inés Rodena, autora cubana) queria dar início a um projeto arrojado e ousado: uma sequência de novelas protagonizadas pela mesma atriz, todas seguindo o mesmo padrão de enredo rosa, característico dos textos de Rodena.

Faltava então a artista ideal para interpretar essas personagens, que depois de muitos testes chegou-se o nome de uma jovem atriz e cantora mexicana que naquela época já despontava para ser uma grande estrela: Thalía.

Trilogia das Marias

Thalía havia estreado nos palcos em grupos infantis e adolescentes como cantora, em seguida chegou ao famoso grupo musical “Timbiriche”, em que chegou a dividir vocais com grandes cantores mexicanos. Na atuação estrelou musicais para o teatro, como “Grease”, mas sua estreia na TV só veio ocorrer na novela “Pobre Señorita Limantour” em 1987, em um papel de destaque.

Ainda no mesmo ano ela recebe de Carla Estrada a proposta de ser coprotagonista junto a Adela Noriega da novela “Quinceañera” (Quinze Anos no Brasil) uma das novelas mais importantes da Televisa que trazia o público teen como alvo. Thalía ainda ganhou, junto ao grupo “Timbiriche” a chance de cantar o tema de abertura da novela. A produção foi um fenômeno.

No ano seguinte Thalía ganha a chance de protagonizar sua primeira novela, “Luz y Sombra”, apesar da novela não ter obtido o sucesso esperado, a artista já tinha se tornado um grande nome no cenário mexicano, e por essa razão se lança como cantora solo no ano de 1990. Ela queria se tornar uma grande estrela da música, e isso quase a impediu de estourar no mundo das novelas.

Em 1992, Thalía consegue depois de muita expectativa o contrato da Televisa para protagonizar Maria Mercedes, novela que se conseguisse o êxito desejado, impulsionaria a produção de mais duas novelas similares com a mesma atriz como personagem central.

Maria Mercedes

 

            Em 14 de setembro de 1992 estreava no México uma das novelas de maior audiência de todos os tempos, Maria Mercedes. Thalía depois de uma grande bateria de testes foi escolhida como a grande protagonista da novela que mesclava cenas cômicas com dramáticas (características das novelas inspiradas nos textos de Inés Rodena).

            Produzida por Beatriz Sheridan com o apoio de Salvador Mejía e do mestre Valentín Pimstein, a novela se tornou um fenômeno e segundo alguns dados, chegou a mais de 50 pontos de audiência na época. Thalía se convertia na grande estrela mexicana e seus discos e sua marca estouraram no país.

            Maria Mercedes traz de volta uma história já conhecida no México, uma vez que “Rina” (primeira versão mexicana para a obra de Rodena) já havia sido produzida nos anos 1970. Mesmo assim Thalía mostrou o frescor e todo seu talento ao interpretar a suja e humilde vendedora de bilhetes de loteria da novela homônima.

            Arturo Peniche viveu Jorge Luís, ele que era um dos galãs em ascensão no momento, formou com Thalía um dos maiores casais de protagonistas. Laura Zapata, meio-irmã de Thalía, ganhou o papel da Vilã Malvina del Olmo. E junto a protagonista brilharam em uma novela exagerada e brega até mesmo para a época, totalmente intencional. Valentín queria que Maria Mercedes trouxesse para a Televisa a magia das gatas borralheiras de volta, uma marca que estava sempre se renovando com atrizes novas a cada fase.

            O enredo tratava da bilheteira que se casava a pedido de um milionário moribundo e herdava tudo o que era dele, dando origem ao ódio de Malvina, que tem a ideia de casar o filho, Jorge Luís, com Mercedes para ficar com o dinheiro em seu poder. Dando origem a uma trama repleta de cenas épicas entre as atrizes.

            Depois de muita pancadaria e bate-boca entre protagonista e antagonista, Malvina terminaria a novela louca achando ser Maria Mercedes, enquanto Jorge Luís se apaixonava realmente pela esposa e tinha seu final feliz com ela.

            O sucesso estrondoso fez com que a Televisa resolvesse seguir em frente com o projeto da “Trilogia das Marias” e Thalía assina o contrato mais caro da história da Televisa, chegando a ganhar 2 milhões de dólares (cerca de 5 milhões de reais, na época).

 

Mamimar

            Para seguir com o projeto da Trilogia, é dado a Verónica Pimstein (filha do grande produtor Valentín) a oportunidade de produzir uma novela, junto a grande parte da equipe de Maria Mercedes. A partir daí se iniciam as gravações de Marimar.

            A novela estreia em 31 de janeiro de 1994 estreia Marimar, trazendo mais uma vez Thalía como protagonista de mais uma Maria, dessa vez ao lado de Eduardo Capetillo, grande ator e cantor que já havia trabalhado com Thalía na banda “Timbiriche”.

            A novela trazia como protagonista uma bela e jovem garota que vivia na praia, de vida humilde e criada como um animal, Marimar era uma selvagem. Se apaixona à primeira vista por Sérgio Santibáñez, herdeiro de uma fazenda próxima a praia. Sérgio vivia uma vida desregrada na capital e precisava de dinheiro que só a venda da fazenda poderia resolver. Seu pai, Renato e sua madrasta Angélica decidem não ajudar Sérgio, que para se vingar decide casar com a pobre Marimar para afrontar a família, causando a ira da madrasta Angélica.

            Sérgio então cansado do teatro que ele mesmo armou, vai embora de casa e deixa a esposa. Marimar passa a sofrer com Angélica, que a força a tirar uma pulseira da lama (em uma das cenas mais épicas da novela e da dramaturgia mexicana), pulseira esta que a leva para a cadeia. Angélica manda incendiar a cabana onde moravam seus avós enquanto isso, a deixando sozinha, grávida e desesperada. Depois de muitas humilhações ela decide ir para a capital e vai trabalhar na casa do pai, mas sem saber. É quando ele morre deixando-a rica que ela decide se vingar dos que a humilharam e se torna Bella Aldama, uma grande dama da sociedade, que tem de esconder a filha e sua verdadeira identidade em busca de revanche.

            Angélica ainda paga caro pelo que fez a Marimar, a começar porque a ex menina da praia a faz tirar promissórias de dívidas do marido da lama com a boca, para remeter a humilhação sofrida no passado. Além disso, a vilã sofre o castigo merecido ao morrer desfigurada depois de se queimar completamente em um acidente.

            Chantal Andere ganharia em Marimar um dos primeiros papéis como grande vilã, e a suas cenas com Thalía são clássicas. Angélica Santibáñez é certamente uma das vilãs de novelas mais lembradas pela crueldade.

            Apesar da novela ter explodido na audiência e ser o grande produto do ano da Televisa, Capetillo teve problemas com a produção. Por causa de constantes brigas, a novela foi encurtada em mais de 40 capítulos (de 30 min) e terminou abruptamente com muitas coisas acontecendo rapidamente na reta final.

            Thalía já estava consolidada como o grande rosto da Televisa para o mundo. E suas novelas eram exibidas com sucesso por todos os continentes. Algo não visto desde o começo dos anos 1980.

 

Maria do Bairro

            Em 14 de agosto de 1995 estreava pelo Canal de lasEstrellas, do Grupo Televisa, a novela mais exportada de todos os tempos. Vendida para cerca de 182 países e encerrando a “Trilogia das Marias”. “Maria la del Bairro”, traria Thalía como a terceira Maria e faria com que suas novelas ganhassem o coração do público mundial de vez. É estimado que cerca de 2 bilhões de pessoas no mundo tenham visto suas novelas, que são as mais reprisadas até os dias de hoje em países como Brasil, Rússia, França, Espanha, Tailândia, Argentina, Porto Rico, Colômbia, Peru e no próprio México.

            Maria do Bairro traria uma versão nova do clássico “Os Ricos Também Choram”, mas o texto original foi utilizado basicamente na construção dos personagens e na primeira fase da trama, onde trazia Maria como uma garota ignorante de 15 anos que após a morte da madrinha é amparada por um senhor rico, causando uma revolução na casa da família De la Vega.

            Maria se apaixona por um dos herdeiros da casa, Luís Fernando (Fernando Colunga) e cultiva o ódio de Soraya Montenegro (Itatí Cantoral), prima distante da família, que está disposta a tudo em nome da herança. Conseguindo por meio de uma gravidez falsa se casar com Luís Fernando. Ela morre ainda na primeira fase depois de desmascarada porque um de seus amantes a empurra de uma janela de um prédio.

            A segunda fase da novela se inicia com Maria casando com Luís Fernando e engravidando, mas pelos ciúmes dele, ela acaba abandonada e começa o trabalho de parto no meio da rua, atordoada e completamente louca, dá seu filho para uma vendedora de doces. Todos acabam acreditando que o bebê morreu no parto. Mas Maria dedica a vida a procurar o filho abandonado por mais de 15 anos.

            Nandinho (Osvaldo Benavides), por causa de más companhias e da doença da mãe adotiva, Agripina (Carmen Salinas), acaba indo roubar na casa de Maria, quando é surpreendido pelo próprio pai e preso. Maria descobre ser seu filho e começa a educá-lo para só então revelar a verdade sobre ele e seu abandono.

            A terceira e última fase da novela começa com Nandinho e Luís Fernando sabendo que são pai e filho. E Maria achando que enfim vai poder ser feliz, mas tudo cai por água quando Soraya Montenegro ressurge (ela havia forjado a própria morte ao se deparar com uma paralisia no corpo depois do acidente), decidida a se vingar de Maria e Luís Fernando através de seu filho, seduzindo-o, é quando a novela, que havia perdido o fôlego na segunda fase, volta pegar a fogo.

            Fernando Colunga foi o escolhido para ser o par romântico da Thalía, ele já havia atuado em papéis pequenos anteriormente (inclusive em Maria Mercedes e Marimar), mas foi em Maria do Bairro que ganhou seu primeiro protagonista. Se Thalía tornou-se a “Rainha das Novelas”, Colunga até hoje é considerado o grande “Galã das Novelas Mexicanas”.

            Itatí Cantoral ganhou em Maria do Bairro a maior personagem de sua carreira, e pela primeira vez Thalía foi ofuscada em uma novela. Soraya Montenegro roubou a cena durante toda a novela (em especial na terceira fase), tornando-se uma das maiores vilãs de novelas mexicanas e mais lembradas de todos os tempos.

            A novela foi responsável por fechar com chave de ouro a “Trilogia das Marias” e o fez com maestria. Depois de uma grande pausa para se dedicar a música, Thalía ainda protagonizou “Rosalinda” em 1999, sua última novela. Que embora não tenha sido um fenômeno no México, foi exportada para cerca de 135 países e em todos foi um grande sucesso.

Thalía se tornou a maior e mais reconhecida artista mexicana (ganhou uma estrela na calçada da fama em 2013) e suas novelas são até hoje as mais vendidas da história. Na música Thalía conseguiu se firmar no mundo também graças as suas novelas. E desde 1995, seus discos são vendidos a nível mundial. Já se somam cerca de 40 milhões de álbuns vendidos, tornando-a assim a cantora pop mexicana que mais vendeu discos, e uma das cantoras que mais vendeu na indústria fonográfica.


CENAS DO PRÓXIMO CAPÍTULO (Quarta, 29)

No próximo capítulo do nosso especial vamos continuar falando das novelas que marcaram os anos 1990, grandes clássicos que nunca serão esquecidos por quem aprecia as novelas da Televisa.

Jorge Luis.

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