Como Surgiu E Se Desenvolveu A Teledramaturgia Mexicana Através Das Telas De Uma Das Maiores Produtoras De Novelas Do Mundo: Televisa – Parte V

História das Novelas Mexicanas

Capítulo V – Cuna De Lobos: A Mais Transgressora Novela Mexicana De Todos Os Tempos

Em nosso especial sobre novelas não poderíamos deixar de falar da trama mais marcante da teledramaturgia mexicana. Um capítulo inteiro será dedicado a ela. Diferente de todas as novelas já exibidas no México, “Cuna de Lobos” (no Brasil, Ambição), não se tratava de uma obra de amor, muito menos de uma adaptação latina, era um texto original e que até hoje, 30 anos depois de sua exibição, não ganhou uma adaptação (talvez, a única novela de sucesso da Televisa que não possui um remake). Vamos entender porque essa novela segue sendo tão marcante na memória televisiva mexicana.

Voltemos ao ano de 1986, onde a televisão era o principal e mais forte meio de comunicação e entretenimento da população. O México vivia em crise econômica, as pessoas estavam desempregadas, a TV era o único meio em que elas podiam esquecer os problemas. Os folhetins mais populares ainda eram as “novelas rosas”, porém foi nesse mesmo ano que a Televisa inovou ao estrear um thriller como pano de fundo para a história de Cuna de Lobos (um berço de lobos literalmente). Uma novela atípica até para os dias atuais.

Enredo:

Protagonizada por Diana Bracho e Gonzalo Vega, antagonizada por Alejandro Camacho e Rebecca Jones, quem brilhou do início ao fim foi a matriarca do clã, interpretada por Maria Rubio, no papel da mais temível e lembrada vilã de novelas mexicanas, Catalina Creel.

A história se inicia com o assassinato de Carlos Larios (patriarca e dono da empresa farmacêutica LarCreel) por sua própria esposa Catalina Creel (Maria Rubio), fica claro ainda nos primeiros momentos que ele havia descoberto um terrível segredo da vilã, e por essa razão ela põe veneno em seu suco, fazendo-o perder o controle do carro que dirigia e batendo de frente ao trabalho de Leonora (Diana Bracho). Ela liga para o filho de Carlos, Alejandro (Alejandro Camacho), que ao chegar já encontra o pai morto. Catalina faz de tudo para que não seja feita uma perícia da morte do marido, alegando ser muito doloroso e o enterra no mesmo dia.

A primeira bomba a ser revelada logo nos capítulos iniciais é o conteúdo do testamento de Carlos, onde ele deixa metade de fortuna para a esposa e a outra metade para os filhos Alejandro – filho dele com Catalina – e José Carlos (Gonzalo Vega) – filho de seu primeiro casamento – com a condição de que cada um deve ter um filho para perpetuar seu sobrenome, caso contrário não receberão nada. O primeiro problema vem à tona, já que Vilma (Rebecca Jones) – esposa de Alejandro – é estéril.

Decidido a ter um filho, Alejandro seduz Leonora, que havia lhe avisado da morte de seu pai, a fim de que ela engravide. Fingindo-se de viúvo, ele passa a viver uma vida dupla, entre a casa da esposa e o namoro falso com Leonora. Por outro lado, seu irmão José Carlos que volta ao país depois da morte do pai, tem de suportar a tortura psicológica a qual é submetido pela sua madrasta, Catalina. Uma vez que ela o culpa por ter perdido um dos olhos e a partir de então usar um tapa-olho (sempre combinando com o tecido do vestido). Por essa razão José Carlos passou a vida afastado da família e desenvolveu muitos traumas, e os descarrega no jogo.

Catalina também tem de enfrentar Gutierrez (Carlos Cámara), vice-presidente da LarCreel, que descobre que o patrão foi envenenado, e ainda o joalheiro da família que descobre o seu segredo. Antes de morrer, Carlos tinha encomendado ao joalheiro um olho de vidro barato coberto ao redor por pedras preciosas, em alusão ao olho perdido pela esposa. Ainda no começo da trama, Catalina, se olhando no espelho tira o tapa-olho e revela não ter perdido o olho, e ter armado tudo para tirar o enteado de casa e causar a revolta da família contra ele.

Alejandro planeja um casamento falso para que Leonora não estrague seus planos, e segue enganando ela e a esposa. Até que ele consegue roubar seu filho, e o dá para Vilma criar como se fosse dos dois (nesse momento a esposa já sabia dos planos do marido). Começando a partir daqui a real trama da novela, quando Leonora está disposta a se vingar dos Creel e recuperar o filho roubado. Para tal façanha ela decide seduzir o irmão de Alejandro, a fim de entrar na casa dos Creel e de lá poder se vingar de todos.

Em nome da fortuna do falecido marido, Catalina Creel mata qualquer um que descobre seu segredo, ela mesma se autodenomina a rainha da matilha (em alusão ao título da novela original) e não permitirá que José Carlos e Leonora fiquem com nada que ela julga ser de seu filho legítimo, Alejandro.

Repercussão:


A novela desde o início prendeu o público como nunca antes. Era o tema mais falado nas ruas e seus personagens eram os mais queridos pelo público. Catalina Creel, fez tanto sucesso que ao terminar a novela cartazes e jornais pediam para que ela fosse candidata à presidência do México, algo inusitado até então, já que o público e a crítica torciam pela vilã e vibravam a cada uma de suas frases irônicas e assassinatos.

            Tal repercussão foi refletida em números, a novela é uma das mais assistidas de todos tempos no México, é uma das mais exportadas para o mundo (em torno de 150 países), e é a mais lembrada até os dias de hoje.

Catalina Creel é exemplo de vilã mexicana, todas que vieram depois dela se inspiravam em seu porte e elegância e em seu cinismo. Um trabalho magistral de Maria Rubio, já que era uma vilã diferenciada. Catalina, era contida, falava manso, estática, uma verdadeira sociopata, sem exageros e gritos das vilãs populares. Esse trabalho marcou muito a atriz, que passou 7 anos afastada até voltar as novelas, pois as pessoas não esqueciam a personagem. E, segundo a atriz, isso a prejudicou, pois em todos os papéis seguintes ela não conseguiu apagar a imagem de megera. Uma personagem memorável.

Produção e Curiosidades   

            O produtor Carlos Téllez, junto ao escritor Carlos Olmos criaram uma fórmula imbatível com essa novela. A dupla chegou a escrever diálogos juntos tamanho o entrosamento. Era uma produção arrojada para os anos 1980, as cenas eram cheias de mistério e suspense, e os personagens, antes caricatos e simples nas novelas rosas, aqui eram contraditórios e calculistas.

            Os grandes executivos da Televisa não acreditavam no projeto, pois ele fugia totalmente do melodrama clássico que a essa altura era a marca mais forte nas novelas mexicanas. A vilã Catalina Creel, se tornou o elo central da trama, roubando a cena dos demais antagonistas e dos próprios protagonistas.

            A abertura da novela tratava-se de uma matilha de lobos em seu habitat natural, contendo um instrumental inesquecível como fundo musical.

Incialmente a novela possuía capítulos com 30 minutos de duração exibidos entre 18h30 e 19h. Com o sucesso estrondoso, foi transferida para o horário nobre, às 21h com capítulos maiores, fazendo com que a equipe chegasse a passar 16h trabalhando, para que não houvessem atrasos.

Catalina Creel foi inspirada num papel de Betty Davis para o cinema no filme “O Aniversário” (1968), em que a mesma usava também um tapa-olho. A personagem se tornou um grande ícone mexicano como nunca antes visto, sua imagem forte e assustadora não intimidou os mexicanos que a aplaudiam onde quer ela fosse. É até hoje considerada a mãe de todas as vilãs mexicanas.

Naquela época as novelas tinham cenas muito grandes, que geralmente duravam um bloco inteiro até os intervalos, uma maneira de gravar mais facilmente, sem ser necessário mudar de cenários e personagens com muita frequência, por essa razão os personagens eram poucos e a trama central era praticamente a única. Cuna de Lobos também veio quebrar isso, já que suas cenas eram rápidas e cheias de ação. Os personagens secundários ganharam mais força, e novas histórias foram surgindo e se deslocando do tema central. Esse esquema é utilizado até hoje em dia.

O perfil dos personagens também se diferenciava, a mocinha Leonora se entregava ao namorado (falso) ainda nos primeiros capítulos, sem o mesmo pudor das novelas tradicionais, além disso o encontro dela com o protagonista José Carlos demora meses para acontecer (excluindo um encontro casual por volta do capítulo 15, eles demorariam uns 80 capítulos – de 30 min – para se encontrar). Ela se transforma em uma lutadora implacável em busca de recuperar o filho roubado e de se vingar da família Creel. Ele um jogador compulsivo, carregado de culpa pelo acidente com o olho da mãe, era facilmente controlado e manipulado por todos, inclusive pela mocinha que em sua sede de vingança e justiça se casa com ele para se vingar de sua família, mas depois acaba se apaixonando.

Enquanto isso o perfil dos antagonistas também era diferenciado, Vilma tinha, a princípio, sentimentos nobres e tudo o que mais queria era ter um filho. Seu marido a amava acima de tudo e por isso foi capaz de engravidar uma mulher para lhe dar um herdeiro. Ambos foram se tornando implacáveis durante o decorrer da trama para impedir que Leonora os tomasse seu bebê.

A forma como Catalina se vestia para matar seus inimigos também se remetia ao cinema americano, com peruca loira, sobretudo, luvas e óculos pretos, ela saía na calada da noite e matava com um silenciador qualquer um que ameaçasse contar seu segredo. Uma das mortes mais emblemáticas é a do inspetor de polícia que é empurrado na piscina e acaba eletrocutado com um cortador de grama, mostrando a frieza da vilã.

A trilha sonora da novela (toda instrumental) foi criada exclusivamente para ela por Pedro Plascencia Salinas (filho de Carmen Salinas). A trilha também foi responsável pelo ar de mistério e suspense que envolvia praticamente todas as cenas da novela.

Anos depois, os atores divulgaram que Carlos Olmos e Carlos Téllez se divertiam ao escrever as cenas de morte e drama.

Elenco:

Do elenco principal, Alejandro Camacho, Rebecca Jones, Gonzalo Vega, Diana Bracho, Carlos Cámara, Rosa Mariah Bianchi e a própria Maria Rubio brilharam em muitas produções seguintes como vilões. Uma das marcas da Televisa em suas novelas é sempre o grande número de vilões que fazem da vida dos mocinhos impossível.

            Rebecca Jones teria sido chamada para ser a mocinha da novela, mas os produtores quiseram apostar nela como vilã, este papel foi um divisor de águas, não apenas para ela, como também para o elenco central. Em contrapartida Diana Bracho ganhou o papel de mocinha vingativa e em seguida foi se dedicar a fazer vilãs cruéis em novelas.

            Curiosamente, o produtor Salvador Mejía tentou produzir uma adaptação da novela em 2010, no formato de série, começaram a gravar, porém, sem explicação o projeto foi cancelado. Rebecca Jones (antes Vilma em 1986) agora interpretaria Catalina, fotos dela caracterizada (com direito do tapa-olho) foram divulgadas, inclusive.

            Maria Rubio, Alejandro Camacho e Rebecca Jones voltaram a se encontrar na novela Império de Cristal (1994), numa tentativa de produzir outra novela com a mesma força de Cuna de Lobos, o impacto nem de perto foi o mesmo, apesar de a produção ter feito sucesso.

A novela rompeu com todos os preceitos que o mundo tinha acerca das novelas mexicanas, o elenco foi imortalizado pelos grandes personagens, rompeu todas as barreiras de enredo, paralisou países e se tornou referência.


CENAS DO PRÓXIMO CAPÍTULO (Domingo, 26)

No próximo capítulo vamos chegar aos anos 1990 e a estrela Thalia e sua trilogia das Marias serão primeiro tema dessa década que é uma das mais importantes para a Televisa.

Jorge Luis.

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