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Crítica – Reprise de novelas: O que realmente vale a pena ver de novo?

Qual o critério utilizado para a escolha de novelas que são reapresentadas nas tardes das emissoras? Ainda vale a pena investir em tramas antigas ou sem memória afetiva do público?

A reprise de “No Limite da Paixão” é o maior fracasso dos últimos anos nas tardes do SBT. A trama é antiga, em SD, e a imagem bem desgastada.

*Para melhor assimilação deste conteúdo, clique nas imagens para visualizá-las em tamanho maior

Atualmente, as três maiores redes de televisão do Brasil dedicam-se a reprises de novelas em suas tardes. Um produto que costuma render bastante em termos de audiência e que consegue atrair boas verbas publicitárias, sem que haja a  necessidade de se gastar produzindo nada de novo para o horário.

Algumas bem sucedidas, outras nem tanto, qual será o critério que as emissoras utilizam para escolher as tramas que irão retornar ao ar em suas grades de programação?. Em época do HD e até do 4K, algumas reexibições apresentam imagem completamente desfocadas, sem cor e surradas. Uma má escolha pode derrubar toda a audiência da faixa e até mesmo de todo o período vespertino.

Análise do histórico de reprises da Globo

Amostra da imagem das reprises de “O Rei do Gado” (1997) e Cheias de Charme (2012)

A Globo que desde os anos 80 exibe a faixa “Vale a Pena Ver de Novo“, já transmitiu novelas que foram sucesso, medianas ou fracassos de audiência. Desde 2015 a emissora vem alternando entre produções mais antigas e recentes. Nesse ano, a reprise de “O Rei do Gado“, de 1997, surpreendeu ao atingir médias superiores aos 20 pontos, índices além do esperado para o horário. Na sequência, “Caminho das índias“, essa mais recente, de 2009, caiu para 14.

Na sequência acima, podemos observar que o telespectador da sessão reagiu melhor a telenovela clássica, diante da mais atual. No entanto, esse comportamento não é uma regra. Logo em seguida, a emissora retornou com “Anjo Mau“, também de 97, mantendo os índices mornos da trama de Glória Perez. Com “Cheias de Charme“, folhetim moderno e exibido pela primeira vez em 2012, o canal cresceu três pontos no horário, indo a 17. Em exibição, “Senhora do Destino” acumula média de 16,5, recuando alguns décimos da antecessora e longe da sua primeira reprise que fechou com 21 no ano de 2009.

Imagem da última reprise de “Anjo Mau” (1997)

Analisando as últimas reapresentações global, notamos que não há preferência do público por tramas antigas ou atuais, mas sim por novelas que o telespectador realmente quer assistir. Vimos “O Rei do Gado”, de 20 anos atrás, ir muito bem na reprise mais recente, enquanto “Anjo Mau”, da mesma época, não obteve o mesmo sucesso. Já, “Cheias de Charme”, a mais breve de todas as exibidas, se mostrou mais promissora que a trama estrelada por Glória Pires e que “Caminho das Índias”, também mais moderna.

O que o telespectador quer de fato assistir?

É a pergunta que qualquer equipe, direção ou consultores de teledramaturgia deve se fazer. Acertar não é fácil, mas entender o desejo de seu telespectador, na certa levará a emissora a um caminho mais promissor em audiência e repercussão.

Esse resultado é muito certeiro, se o público lembra da novela, a pediu, a espera, tem alguma relação afetiva com ela, logo, uma reapresentação é válida e quase assertiva no quesito ibope. “Avenida Brasil“, da Globo, é um exemplo de novela que mexeu significamente com os sentimentos de seu telespectador, que até hoje clama por uma reprise. Agora, se o telespectador se quer lembra da sua existência, é bem provável que o folhetim irá causar bastante dor de cabeça aos estrategistas das TVs.

As reprises do SBT

Imagem da reprise atual de “No Limite da Paixão”.

Esse é o caso do SBT. Não se sabe ao certo o critério da emissora ao escolher as produções exibidas em suas ‘Novelas da Tarde‘. O próprio público do canal no horário o bombardeia nas redes reclamando de reprises que ninguém pediu para ver. A emissora segue reprisando telenovelas mexicanas que o seu próprio telespectador não recorda, não possui memória afetiva, seja com elenco, história e tudo mais.

E a resposta do público não poderia ser outra se não baixa audiência. A atual “No Limite da Paixão“, apresentada pela primeira vez há 12 anos, sofre para chegar aos míseros 5 pontos de média. Nesse caso, vemos uma reprise completamente desnecessária, onde não se viu o telespectador pedindo, torcendo ou esperando por uma nova exibição, ao contrário, ele nem mesmo se lembra da existência dessa novela.

Notamos então que a tática do SBT é reapresentar novelas antigas e quase não lembradas, na expectativa de que se tornem novos sucessos, uma vez que a emissora já saturou os seus maiores sucessos com tantas reexibições em pouquíssimo espaço de tempo, como os casos de “A Usurpadora“, “Maria do Bairro“, “Marimar“, “Pérola Negra“, “Canavial de Paixões“e “Rubi“, todas com resultados muito abaixo do esperado em suas exibições mais recentes.

O histórico de más escolhas do SBT

E não é uma prática atual. Em 2010, o canal de Silvio Santos retornou com as reprises de novelas no horário da tarde. Em 2013, a ironicamente esquecida “Jamais te Esquecerei“, saiu de cena com a pior audiência do horário: apenas 3 pontos. Em 2013, voltou com “A Madrasta“, sucesso em primeira exibição, mas que ao retornar 8 anos mais tarde, não rendeu conforme o esperado. Mas, a emissora não se deu por vencida e insistiu em resgatar algumas produções, o resultado foi todas elas saindo do ar antes do previsto com médias de 3 pontos. “Por Teu Amor” durou pouco mais de 30 capítulos, “Abraça-me Muito Forte“, êxito 13 anos antes, micou e também não teve nem metade dos capítulos exibidos.

Imagem da reprise de “Por Teu Amor” (exibida primeiro em 2001)

Nos casos acima, notamos que o público ignorou as novelas, mesmo a maioria tendo sido grandiosos sucessos em suas primeiras exibições. O mal da emissora foi ter esperado muito para reprisá-las, quando eram ainda lembradas e consideradas êxitos. Em suas reprises, nem nomes fortes no elenco foram capazes de chamar atenção do telespectador, como o de Gaby Spanic em “Por Teu Amor” ou Thalia em “Maria Mercedes“, ambas fracassos em última transmissão.

Contudo, o SBT, do contra como sempre, insiste no resgate de tramas que ninguém sabe, ninguém viu, e até fracassos retornam ao ar, para mais uma vez fracassarem em uma ação quase masoquista da direção da emissora. Foi o caso de “Jamais te Esquecerei”, que não foi sucesso nem em sua exibição original, e é o de “No Limite da Paixão”, com desempenho bem mediano em 2005 e fraquíssimo agora em 2017.

E a emissora, pasmem, segue considerando tramas assim para futuramente ocupar a faixa vespertina, como “Maria Isabel“, maior sucesso da extinta “Tarde de Amor” em 2000, que apesar dos bons índices nunca mais foi exibida e tornou-se desconhecida do público. Mesma situação de “Camila“, de 2001. Detalhe também interessante é que as duas são ainda da década de 90 e a imagem deve estar só pela misericórdia divina.

A qualidade, ou não, das imagens

Imagem da reprise de “A Mentira”. Clique para ampliar.
Imagem da reprise de “Abraça-me Muito Forte”. Clique para ampliar.

A cereja do bolo dessas reprises infundadas do canal está no quesito ‘qualidade de imagem’. A maiorias das tramas que retornaram e pagaram mico nas tardes da emissora tinham ou tem imagem completamente foscas, sem coloração, escuras e até esverdeadas. “A Mentira“, que retornou nada mais que 16 anos após ter ido bem em horário nobre, apresentava uma imagem surpreendentemente ruim. A emissora exibir em plena era do HD, do 4K e do 3D, novelas com imagens desgastadas e em SD, e pedir para o público que suou para comprar uma TV moderna que  assista a tanta velharia em baixa resolução, cenas desfocadas, verdes ou escuras e com as temidas tarjas pretas é um tanto descabível.

 

Imagem da última reprise de “Maria Mercedes” (de 1996). Clique para Ampliar.

Resumindo a situação do SBT, o canal sofre em audiência porque quer. A recente tentativa da emissora em ser a única a investir em novelas inéditas no período foi completamente bem sucedida, com 90% das tramas novas e em HD registrando alta audiência nos mesmos horários que as outras fiascaram. “Teresa” e “A Gata” chegaram a impressionantes 11 pontos em um horário que a rede da Anhanguera penava para passar dos 5.

A prova disso é a rejeição do público por “No Limite da Paixão”, exibida às 17 horas, enquanto que a inédita “O Que a Vida me Roubou“, que entra logo depois, sobe até dois pontos do que recebe. Ou seja, dê ao público o que ele quer, e que neste caso são novelas novas e com boa qualidade de imagem, que a emissora, sabe-se lá o porquê, não quer ver ou ouvir.

As novelas da Record TV

Imagem da reprise de “Prova de Amor” (2005) na Record TV.
Qualidade de imagem em HD da reprise de “Vidas em Jogo”.

Na Record TV, aponta-se para duas situações distintas. A primeira, é que novelas que foram muito bem em exibições inéditas em horário nobre,  iam sempre mau em reprises vespertinas. Por inúmeras vezes o canal cancelou do nada as reprises com poucos capítulos exibidos, casos de “Bicho do Mato” e “Essas Mulheres“. Evidenciando que o público que estava com a TV ligada no horário não sentia nostalgia ou desejo algum de rever essas tramas novamente. Essa situação mudou recentemente, quando ao ficar sozinha no horário com as suas reprises, passou a registrar a vice-liderança com novelas que boa parte do público rejeitava no começo, como “Amor e Intrigas“, “Ribeirão do Tempo” e “Vidas em Jogo“, que mais aponta o erro do SBT em seguir com programas como o “Fofocalizando”, que nunca agradou ao telespectador do horário como concorrente direto, do que acerto ou sorte da emissora dos bispos em retransmistir essas novelas que ninguém pediu para ver de novo e funcionam graças a incompetência de Silvio Santos comandando a programação do seu canal.

 

O que reprisar e o que não?

Resumindo, novelas que foram sucesso, mas que demoraram muito para terem reprises ou êxitos que ficaram velhas no vídeo, com cenografia e figurinos pesados para a época atual e para o período da tarde, não são boas pedidas para retornarem  à programação das emissoras. Menos ainda as produções cujo o público não recorda mais ou nem sabe que existiu, não tendo relação alguma de afeto com a trama e, ainda pior se apresentarem imagem sofríveis. Essas não deveriam se quer serem pensadas.

Já, as novelas que o público não cansa de pedir ou esperam incansavelmente por uma nova exibição, são soluções certeiras para emplacar na faixa vespertina. No entanto deve haver critério, não é interessante reprisar uma novela que acabou há poucos meses ou no máximo um ano. Também não se deve considerar como uma verdade absoluta os pedidos via redes sociais, que não representa em sua totalidade o público do horário de donas de casa que é o público-alvo e grande consumidor deste produto, e que se quer participa de Twitter ou grupos que fazem campanha por exibições de novelas.

Outro ponto importante e que nenhuma emissora séria e comprometida com o público e, claro, preocupada com a sua audiência deve fazer,  é escolher os seus folhetins em reprise por puro gosto pessoal, colocando no ar aquilo que gosta, sem o menor critério sobre o público que irá atingir, não pensando nos quesitos que podem fazer dela sucesso ou grande fracasso em ibope e repercussão.

Dyego Terra

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